Volta às aulas: mal necessário?

Volta às aulas: mal necessário?

Com a primeira onda da Covid-19 se arrastando pelo país há meses, as discussões sobre a volta às aulas vão e vêm com muita frequência, dependendo do cenário que vivemos. Em junho, publiquei aqui no blog como seriam as possíveis adaptações para esse retorno, que acabou por não ocorrer ainda, pelo menos em São Paulo.

Em Manaus, por exemplo, 100 mil alunos da rede pública voltaram para a escola esta semana, mas o cenário não foi muito tranquilizador: houve aglomerações nas portas das escolas, o distanciamento nas salas não foi o adequado, não havia álcool em gel em todas as salas e muitas tinham pouca ventilação.

Então, fica a pergunta: devemos considerar voltar, diante de um vírus facilmente transmissível, que tem causado tantas mortes ao redor do mundo? E por que esse tema é tão importante?

 

Por que voltar?

  • Além do aprendizado acadêmico e socioemocional essencial, as aulas presenciais propiciam relacionamentos com colegas e adultos, oportunidades para brincar e suprir outras necessidades de desenvolvimento, que não são possíveis quando as crianças são mantidas em casa.
  • Crianças em famílias com menores condições financeiras dependem, muitas vezes, da alimentação que recebem nas escolas, além de outros serviços sociais, que oferecem cuidados nem sempre obtidos em casa.
  • Voltar possibilita o retorno dos pais ao trabalho – e muitos setores já estão demandando isso. Onde deixar as crianças nesse caso?
  • Nem todas as famílias têm internet e computador adequados para que o aluno acompanhe suas aulas online de casa – tem havido exclusão por conta disso. Participa quem pode.
  • Estudos têm reforçado que crianças e adolescentes são muito menos propensos do que os adultos a ter as formas graves da doença, e que há evidências de que a suscetibilidade à infecção geralmente aumenta com a idade.
  • Muitas atividades já foram retomadas em ambientes como academias, shoppings, lojas e restaurantes, considerando-se apenas o lado econômico. Seguindo os protocolos adequados, por que não a escola, que traz benefícios sociais, além dos educacionais?
  • O número de casos continuou a diminuir na Dinamarca, que reabriu escolas primárias em abril e de ensino fundamental e médio em maio, com regras rígidas de distanciamento social. O mesmo ocorreu na Finlândia, Bélgica, Áustria, Taiwan e Cingapura.

 

Por que não voltar?

  • Há dificuldade em manter a distância física, especialmente entre crianças pequenas, e fica difícil para os professores impor o distanciamento e ensinar ao mesmo tempo.
  • O distanciamento físico vai contra os princípios das práticas escolares: o professor precisa estar próximo para manter o bom relacionamento com os alunos.
  • Pelo fato de a maioria ser assintomática, há o questionamento: será que as crianças poderiam contrair o vírus e disseminá-lo entre adultos e pessoas mais velhas?
  • Os próprios profissionais de educação podem ser infectados pelas crianças, durante a rotina escolar.
  • Crianças que têm pais que trabalham na Saúde teriam mais chances de contrair o vírus e, consequentemente, de levá-lo para a escola?

 

Como voltar?

Decidindo-se pela volta, ainda que parcial ou híbrida, será preciso tomar cuidados diversos.

  • O distanciamento físico deve ser mantido. Por ser mais difícil de realizá-lo entre crianças muito pequenas, as práticas de higiene devem ser reforçadas, com lavagem constante das mãos delas e uso de álcool em gel em todos os ambientes.
  • Funcionários e famílias devem receber informações constantes sobre prevenção de infecções.
  • Uso de máscara por alunos (maiores de dois anos) e funcionários o tempo todo, além de outros equipamentos de proteção que se façam necessários.
  • Testes e o rastreamento nas cidades devem ocorrer com frequência.
  • Quadras e locais recreativos devem se manter fechados.
  • A ventilação deve ser constante em todos os ambientes.
  • As mesmas condutas de higiene devem ser aplicadas durante o transporte dessas crianças.
  • Reuniões com os pais devem ser online, e eles não devem entrar nas escolas.
  • Corredores devem ser demarcados, ou usados para uma só via, quando possível.
  • Cantinas e refeitórios devem possibilitar o espaçamento entre as crianças na hora do lanche.

 

Não tem certo ou errado

A questão é complexa: pelo bem da saúde física e mental das crianças, bem como da economia de suas famílias, elas precisam voltar às aulas.

Mas é realmente uma questão complexa. Cabe a cada família analisar os pontos positivos e negativos desse retorno e sua própria estrutura para tomar a melhor decisão. Não devemos julgar decisões exatamente pela dificuldade que esse cenário nos traz. Seguir os protocolos sanitários, sem dúvida, propicia a diminuição dos riscos.

Não há uma resposta exata. Que 2020 não seja considerado perdido, mas sim um ano em que fomos desafiados a olhar com cuidado, ética e responsabilidade para a questão da educação no meio de uma pandemia sanitária mundial.

Dr. Daniel Servigia Domingos (CRM 139.044), pediatra geral e endócrino pediatra

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