A tosse do meu filho não passa: posso dar xarope?

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A tosse do meu filho não passa: posso dar xarope?

Nessa época do ano, é muito comum as crianças ficarem resfriadas, e a grande preocupação das mães é a tosse. Recebo muitas mensagens em meu celular perguntando se não há um xarope para evitá-la ou acabar com ela, e minha resposta é sempre a mesma: “Não existe xarope para tosse”, infelizmente. Sei o quanto é angustiante ver nossos pequenos tossindo, dormindo mal, engasgando por causa dela; porém, quando provocada por um resfriado, não tem medicação que ajude a melhorar.

E os xaropes vendidos em farmácias? Bem, existem diversos xaropes para tosse à venda, é verdade. Entretanto, já foi comprovado que essas medicações não diminuem o problema e nem o tempo de duração do resfriado, ou seja, dar água ou dar esse tipo de medicação tem o mesmo efeito. Aí surge a pergunta: “Então não há nada mesmo que possa ser feito, doutor?”. E a resposta é: sim, claro que há. Ao longo do texto explicarei. Contudo, antes de chegar ao ponto, precisamos entender um pouco como funciona o resfriado.

A maioria dos resfriados comuns são provocados por vírus e duram em média de 5 a 7 dias nas crianças maiores, e até 14 dias nas menores. Inicialmente, manifesta-se com febre e mal-estar nas primeiras 24-48 horas, juntamente com os sintomas respiratórios (tosse, coriza, congestão). Após 24-48 horas, a febre e o mal-estar melhoram, mas os sintomas respiratórios pioram entre o 3º e 6º dias. Quando começam a melhorar, a tosse pode persistir, chegando a durar mais de 10 dias em alguns pacientes, conforme mostra a figura:

Portanto, mamães, papais e responsáveis: não esperem uma melhora rápida da tosse. Vale lembrar, também, que a tosse não é uma doença, e sim uma defesa do nosso organismo ao aumento da secreção, o que significa que nosso corpo está tentando retirar a secreção dos pulmões.

Se a criança estiver sem febre, em bom estado geral e sem dificuldade para respirar, não há necessidade de ir ao pronto-socorro, pois tenho certeza de que vocês sairão com uma receita enorme com xaropes fitoterápicos, homeopáticos, expectorantes, descongestionantes, antialérgicos (como: hixizine, allegra, desalex), prednisolona, recomendação de inalação com medicação e, algumas vezes, antibióticos. E eu garanto que nada disso funcionará; vocês só estarão gastando dinheiro e expondo o filho de vocês aos eventos adversos dessas medicações sem nenhum benefício para o resfriado.

Só para termos uma ideia, os efeitos dessas medicações podem ser:

  • Xaropes expectorantes: podem aumentar a tosse, causar distúrbios intestinais e broncoespasmo;
  • Descongestionantes: podem ressecar a membrana nasal, causar intoxicação, piorar a congestão após um certo período e provocar sangramento nasal;
  • Antialérgicos: podem causar boca seca, alucinações, retenção urinária e deixar seu filho sonolento;
  • Prednisolona (corticoide): pode causar pressão alta, edema facial, dor de cabeça, aumentar a glicemia, provocar úlcera gástrica, aumentar a pressão ocular e catarata;
  • Antibióticos: podem selecionar bactérias resistentes e deixar de funcionar quando seu filho realmente precisar deles.

Doutor, então o que posso fazer?

 

Durante o resfriado, buscamos fluidificar e remover as secreções, então podemos tomar algumas medidas que não são caras e não causam danos aos nossos filhos:

  • Manter a hidratação (oferecendo bastante água);
  • Oferecer líquidos quentes (chá, sopa), pois eles podem acalmar a membrana respiratória e  soltar as secreções através da inalação do vapor quente, deixando-as mais fáceis de serem removidas;
  • Aplicar soro fisiológico morno no nariz: não adianta pingar gotinha, pois assim só molha a secreção e não a retira. O ideal é aplicar o soro em seringa de 5 a 10 ml em cada narina por meio de um jato contínuo, para que este saia pela outra narina (há alguns vídeos no youtube ensinando, vale conferir);
  • Mel para os maiores de um ano: estudos evidenciaram melhora dos sintomas quando as crianças fizeram uso;
  • Antitérmicos para febre (dipirona, paracetamol, ibuprofeno).

Essas são medidas simples, sem custo exagerado e com melhores benefícios do que os “xaropes para tosse”. Lembre-se de que são medidas para amenizar os sintomas, e não para curá-los, pois, mesmo fazendo todas essas medidas, eles ainda podem persistir. Fiquem tranquilos e, em caso da tosse persistir, procure acompanhar com o seu pediatra.

Dr. Daniel Servigia Domingos (CRM 139.044), pediatra geral e endócrino pediatra

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