Obesidade infantil: sim, corrigir é papel dos pais

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Infelizmente, alguns casos de obesidade infantil são negligenciados. Os pais não entendem a gravidade do problema. 

Obesidade é uma doença crônica, grave, recorrente e progressiva. Para se ter uma ideia, o problema é tamanho que faz com que, pela primeira vez em anos, as crianças de hoje possam viver menos que seus pais devido às doenças consequentes do excesso de peso.

Para aprofundar um pouco o assunto, trarei dados de 2016 que apresentei na V Jornada de Pediatria, do Hospital Leforte, em agosto passado:

  • 41 milhões de crianças com menos de 5 anos estão acima do peso ou obesas;
  • Mais de 1,9 bilhão de adultos maiores de 18 anos está acima do peso (39%);
  • 650 milhões são obesos (13%);
  • A prevalência mundial de obesidade triplicou entre 1975 e 2016;
  • Prevalência de sobrepeso e obesidade aumentou de 4% em 1975 para 18% em 2016 em crianças e adolescentes;
  • No Brasil, mais de 50% da população tem excesso de peso.

Os números são assustadores, não é? Pois é, e não para por aí. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta a obesidade como um dos maiores problemas de saúde pública do mundo. A projeção é que, em 2025, cerca de 2,3 bilhões de adultos estejam com excesso de peso. Desse número, mais de 700 milhões, com obesidade. Já o número de crianças poderá chegar a 75 milhões. 

Esses índices são resultado das mudanças nas últimas três décadas, em que houve um desequilíbrio energético, pois o ambiente tornou-se obesogênico devido a comportamentos alimentares inadequados e à falta de prática de atividade física. 

Mas como começa a obesidade infantil? 

Uma criança saudável que só vê televisão, joga videogame, tem uma alimentação rica em guloseimas e não pratica atividade física torna-se uma criança levemente obesa. 

Esses quilos a mais já são suficientes para diminuir os movimentos, levando a criança a fazer cada vez menos exercícios, ficar mais tempo em casa, aumentando consumo de alimentos inadequados. 

Se esse ciclo não for interrompido, ela continuará comendo cada vez mais, fazendo cada vez menos exercícios e ganhando cada vez mais peso até se tornar uma criança gravemente obesa e, assim, a tendência é que ela seja um adulto obeso, com diversos problemas de saúde como asma, diabetes, depressão, baixa autoestima, doença coronariana e doença pulmonar, entre muitos outros.

O fator familiar: faça o que eu faço!

Os pais, cuidadores ou responsáveis podem pedir, mandar, implorar para que a criança aceite a alimentação saudável em seu prato, mas nada vai adiantar se os próprios não derem o exemplo. A criança vê o que o adulto come e vai querer comer igual.

A criança que se torna obesa tem mais chance de manter essa condição, e virar um adulto obeso. Dados mostram que a cada cinco crianças obesas, quatro assim permanecerão quando adultas. Considerando-se as condições gerais de saúde, é pior uma criança ser obesa e assim se manter, do que ficar obesa apenas depois, na fase adulta, já que ela passa mais tempo de vida acima do peso, aumentando assim o risco de complicações na vida adulta, principalmente diabetes e doenças coronarianas.

Também já é reconhecido que, quando os pais são obesos, seus filhos tendem a ser obesos também. Estudos mostram que:

  • Quando os pais não são obesos a chance de obesidade nas crianças é de 9%; 
  • Quando um dos pais é obeso, a chance aumenta para 50%;
  • E ela sobe para 90% quando ambos os pais são obesos. 

Isso é reflexo de uma rotina alimentar familiar não saudável, ou seja, os pais não se alimentam corretamente e não dão o exemplo. Quando a criança passa a selecionar o que come, em pouco tempo, ela estará inserida nesse mesmo contexto. 

Melhor arma contra obesidade é a prevenção

Como pediatra e endócrino, meu papel inclui algumas orientações aos pais. São elas:

  • A prevenção começa no pré-natal: a alimentação da mãe influencia no peso do bebê, e estudos mostram que bebês de mães que têm dieta adequada no pré-natal aceitam com mais facilidade os alimentos saudáveis durante a introdução alimentar;
  • Evitar ganho de peso excessivo durante a gestação;
  • Incentivar o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de vida;
  • Orientar introdução alimentar complementar de forma adequada a partir do 6º mês estimulando consumo de alimentos saudáveis, e colocar no prato todos os grupos alimentares: carboidratos, proteínas, salada, legumes e leguminosas;
  • Preferir o consumo de fruta in natura e evitar sucos de fruta em menores de um ano;
  • Evitar doces e produtos industrializados até os dois anos de vida;
  • Estimular a família a fazer refeições compartilhadas com todos à mesa pelo menos três vezes por semana;
  • Incentivar a família a estruturar horários das principais refeições – café da manhã, almoço e jantar, além de lanches da manhã e da tarde -, evitando, assim, que uma delas seja pulada (especialmente o café da manhã);
  • Evitar distrações durante as refeições (tablets, celulares);
  • Incentivar a autonomia da criança;
  • Respeitar os sinais de saciedade da criança;
  • Evitar usar a comida como recompensa ou barganha;
  • Incentivar atividade física pelo menos 60 minutos todos os dias;
  • Limitar o tempo de tela das crianças (seja com TV, celular ou tablet).

O importante é focar na modificação do estilo de vida, e não somente no peso, além de envolver toda a família no processo. O acompanhamento com o pediatra endocrinologista é essencial para formatar uma boa dieta para os pequenos – e garantir mais saúde para toda a vida!

Dr. Daniel Servigia Domingos (CRM 139.044), pediatra geral e endócrino pediatra

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