Colar de âmbar: vale a pena?

colar de âmbar

Colar de âmbar: vale a pena?

Você já ouviu falar sobre o uso do colar de âmbar nas crianças? Não? Provavelmente você já viu uma criança com um, mas talvez não tenha se dado conta. Aos pais que já sabem do que se trata, geralmente costumam nos questionar no consultório sobre sua eficácia. Por isso, falo aqui um pouco sobre ele e os riscos que pode trazer aos pequenos.

Vamos entender melhor o acessório: ele é feito com pedrinhas de âmbar, uma resina vegetal que há, aproximadamente, 50 milhões de anos virou fóssil. Essa resina tem como princípio ativo o ácido succínico, uma substância capaz de fortalecer o sistema imunológico, estimular o sistema nervoso e melhorar a atividade cerebral, de acordo com estudos químicos. 

Alguns acreditam que a resina também é capaz de agir como um analgésico e anti-inflamatório natural, ou seja, ele seria capaz de amenizar dores na fase de dentição das crianças e também cólicas. Sendo assim, pais e mães resolveram usar o colar em seus bebês para que esse período fosse menos conturbado. Mas será que o colar realmente funciona? 

Na medicina, usamos como parâmetros estudos científicos que comprovem a eficácia do objeto em estudo. No caso do colar, não há estudos que comprovem seus benefícios. Instituições como a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a Associação Brasileira de Odontopediatria, a Sociedade de Pediatria Canadense, a Academia Americana de Pediatria e a U.S. Food & Drug Administration (agência reguladora de medicamentos do governo americano, mais conhecida como FDA) não recomendam o uso, bem como a maioria dos pediatras que conheço.

Outro fator que coloca em cheque a eficácia do acessório é que, devido à sua popularização, hoje muitas peças nem são feitas de âmbar, mas de outros materiais.

Riscos que não compensam

Não há dúvidas de que esse colar – como qualquer colar, cordão ou colar de âmbarcorrente no pescoço de um bebê – pode sufocá-lo. Além disso, se ele se romper, a criança pode engolir as pedrinhas, que, chegando ao pulmão, impedem a passagem de ar e causam asfixia. Sabemos que é impossível que um adulto esteja atento o tempo todo; por isso, é melhor evitar ameaças gratuitas.

Recapitulando: não há comprovação científica do benefício do âmbar para a saúde. Ainda que alguns pais queiram acreditar nesse benefício, hoje muitos colares nem de âmbar são feitos. E, finalmente, vale a pena deixar algo enroscado no pescoço, braços ou pernas do bebê, sabendo que ele pode se sufocar com o colar ou mesmo com suas contas? 

Infelizmente, as modas divulgadas na Internet tendem a se proliferar quase que irracionalmente. Eu uso porque a celebridade usou, a famosa usa, a “mãe blogueira do ano” defendeu. 

Pais e cuidadores, sejamos sensatos. Nada contra religiões, crenças e misticismos. Mas, quando levamos esse tema para o mundo de bebês que não têm controle ou domínio do que acontece à sua volta, agimos com irresponsabilidade.

Vamos cuidar de nossas crianças com vacinas, com consultas médicas frequentes, com prevenção a doenças. Vamos cuidar, também, com paciência e muito carinho no momento de dor, de febre, de novos dentinhos. Algumas dores nos ajudam a crescer, e ter os pais ao lado nesse momento é, certamente, o melhor dos remédios!

Ainda assim, quero usar no meu filho

É claro que a decisão final sobre o uso ou não do acessório é dos pais. Nesses casos, cabe a nós, pediatras, tentarmos orientar e minimizar os riscos ao máximo possível. Por isso, listamos algumas recomendações de segurança:

  • Evite que o bebê durma com ele no pescoço;
  • Observe a criança o tempo todo enquanto estiver usando o acessório;
  • Retire o acessório durante o banho;
  • O fio do colar deve ter um nó entre cada uma das contas – assim, se arrebentar, uma pedrinha cairá, e não todas, e a chance de engasgo será reduzida;
  • O fecho deve ser de rosquear, dificultando as chances da criança abri-lo;
  • Observe as reações do bebê: ele puxa muito? Tenta tirar? Se sim, melhor realmente não usar, pois a chance do colar arrebentar é maior;
  • Escolha tornozeleira ao invés do colar, diminuindo as chances de sufocamento pelo cordão – mas lembre-se de que usar nos braços ou no tornozelo não reduz a chance de engasgo ou ingestão das contas;
  • O tamanho ideal do colar é entre 33 cm e 36 cm, independentemente da idade da criança, para que não fique muito apertado ou folgado na criança.

Dr. Daniel Servigia Domingos (CRM 139.044), pediatra geral e endócrino pediatra

Sem comentários

Postar um comentário

WhatsApp chat